O Mostrengo Austral Parte IV - O Carrasco Apreensivo

“Digam a ele é impossível! Absolutamente! Tal possibilidade está totalmente fora de questão!”

“Sim, Vossa Graça.”

“Vossa Alteza! Gostaria que parasse com o jogo de mensageiros e que atendesse-me com a atenção que meu título me concede” Enquanto as portas se abriram num estrondo, mas nenhum guarda se atreveu a por as mãos em Domos.

“Pois bem, se queres ver o veredicto saindo dos meus lábios com teus próprios olhos, que assim seja: Não!” Franco tentava evitar olhá-lo nos olhos, mas a entonação devia ser tal que o contato visual aconteceu e se fez sentir muito estranho para o Senhor feudal.

“Mas, Senhor, eu tenho a guia divina, tu sabes muito bem.”

- Derramem! – Gritou, e os homem em suas grossas armaduras derramaram óleo quente nos exércitos que cercavam os muros. – Agora! – E uma fileira de arqueiros com flechas pegando foco atirou contra os monstros disfarçados de homem nos muros que cercavam o feudo fazendo todos eles arderem em chamas.

Domos correu pelos muros até chegar em uma parte vulnerável, estavam perdendo muitos homens e os mostrengos subiam por escadas em direção aos muros. Ele chutou uma delas fazendo três dos austrais caírem juntos. Um leve sorriso podia ser visto em seu rosto antes de sentir a pancada na cabeça. O capacete amorteceu os danos da maça e saiu voando, deixando-o desprotegido e ao chão. Virou-se rapidamente, ainda que meio tonto, para encarar seu inimigo.

“Deus guiou minha adaga naquela noite quando matei o outro mostrengo. Por que haverias nosso Deus de não me guiar na batalha contra um exército deles?!” E olhou para Apso.

Franco fez o mesmo.

- Não… – sussurrou ao olhar o rosto demoníaco e sedento por sangue de seu inimigo. Estava encarando a morte naquele momento, e ela tinha uma pele escura, cor de café, olhos negros, sobrancelhas grossas, uma barba negra como o breu e um turbante envolto ao crânio. E envido pelos olhos lúgubres e sedentos de sangue, Domos fechou os olhos esperando a morte. Viu Lucrécia.

“Vejas como pensas, rapaz. Nosso Deus ajudou-lhe naquela noite e as razões dele o ter feito são desconhecidas. Homem algum teria chance com um mostrengo como que enfrentou. Multi-tentáculos retrateis e fogo pela boca não é para qualquer um, muito menos um homem sem a ajuda de Deus. E faço questão de lembrar-te, o que tu mataste naquela noite fora uma fêmea. O que temos aos arredores de Ojeriza tratam-se de machos com toda a certeza muito mais poderosos. Não podemos simplesmente deixá-lo abrir as portas e recebê-los com seus golpes guiados por Deus. Ouvimos dizer que tiveste dificuldade para matar a mostrenga, como é que, mesmo com a ajuda de Deus, pretende matar esta rajada deles e impedir uma barbaridade? Sua ideia está totalmente fora de cogitação.”

“Padre” Domos abaixou os olhos. “Deus, nosso Pai, nos ajudou e nos ajuda sempre. Tenho fé de que ele nos ajudará.”

De olhos fechados e esperando a morte, surpreendeu-se com a demora para ser finalmente suplantado e, por tal razão, abriu os olhos, surpreendendo-se com a cena seguinte. Viu o portador de seu óbito, seu algoz caído frente à ele. O corpo dele se remexia sem parar, era como se estivesse possesso por algum demônio. Seus braços buliam, tal qual suas pernas, para frente e para trás, para cima e para baixo, num tremelique tremendo. Os olhos voltados para cima, quase entrando as pálpebras, completamente brancos, e a espuma branca que saía da boca da morte eram os sinais que precisava. Deus o havia ajudado mais uma vez.

Domos, então juntou as mãos e agradeceu – Obrigado, pai! – Levantou-se de sua catacumba e alcançou, no meio da algazarra de flechas e morte que os cercava, a maça com que fora atingido. Mirou o rosto do carrasco e examinou-o minuciosamente, queria guardar cada detalhe de seu quase verdugo e, por fim, afundou a maça em seu rosto, espalhando pedaços de seu crânio e miolos ao chão quente do lugar.

“Batalha alguma se ganha pela fé!” Gritou Apso, surpreendendo todos os presentes.

“Mas então por que travamo-as por ela?!” Domos jogou seu capacete no chão do salão e saiu com passos largos e rápidos.

Apso passou a mão na cabeça, preocupado. Virou-se ao primo.”Por que não tomaste partido nesta discussão, Primo?”

“Mais do que tomei. Fora eu quem dissera o não. Tu somente justificaste minha resposta.”

Barrabás quase não dormira naquela noite. Passara a escuridão toda olhando a imagem escura e desfocada de uma rachadura no teto. Passou horas encarando aquilo com a mente mais vazia de todas, não queria pensar em nada, então não o fazia. Quando finalmente caiu no sono, foi como um piscar de olhos, pois logo os abriu e já era dia. Olhou para o lado e viu que o amigo continuava dormindo pesadamente. Tentou cutucá-lo, mas não obteve sucesso. Decidiu, então, por voltar a encarar o teto e esperar o tempo passar.

A luz que penetrava os estreitos vãos da porta, deixavam a imagem dele muito mais clara. Era possível contar as rachaduras e observar o mofo crescendo nas laterais. Então fechou os olhos e decidiu somente tentar escutar o que se passava na dispensa e fora dela. Ouvia o barulho de passos rápidos e leves. Concluiu que deveria ser algum rato. Prestou atenção na respiração dele e do amigo. Por alguma razão estavam completamente fora de sintonia. Tentou, então sincronizá-las sem sucesso, pois se deparou com os passos de Lucrécia fazendo alguma coisa na cozinha. O barulho de pratos sendo postos à mesa e de lenha queimando no fogão. Os passos iam aumentado, ela estava indo para e dispensa. Pensou ter a ouvido dizer que ia acordar os meninos.

Por razão qualquer que seja, estúpida, como havemos de convencionar, à medida que os passos chegavam mais próximos da dispensa, mais o coração de Barrabás batia rapidamente.

TOC! TOC! TOC!, bateu a porta. Lucrécia foi, então, abrí-la.

“Ah, você. Entre, por favor.” Disse a mulher.

Os passos entraram e sentaram-se a mesa. Barrabás podia desenhas tudo que acontecia ali em volta, podia ver com os ouvidos quando Lucrécia pôs a chaleira no fogão, mas somente não via a figura de quem havia entrando. Em sua mente, via somente um homem negro, todo negro, sem olhos e sem boca.

“Olá Lucrécia, acho que sabes por que vim até aqui.”

“Na verdade não…”

“Vim alertá-la sobre os perigos que corre vivendo aqui, só.”

“Não vivo só.”

“Nós dois sabemos bem que Edmur mal pode defender a si mesmo, muito menos ele e uma mulher. Mal pode defender sua esposa, como haveria de defender a ti.”

Os dois se calaram por alguns momentos.

“O que queres aqui?” Ela perguntou, notoriamente incômoda.

“Vim aqui hoje para fazer-te um apelo. Um sincero apelo de que voltes para teu marido, Domos. Com ele terás a segurança que necessita e poderás viver sem medo.”

“E por quê haveria de ter medo de qualquer coisa que seja.”

“Nós dois sabemos que nosso Franco, naquela noite, achou que tua simpatia era, na verdade, um flerte disfarçado. Nós dois sabemos que a infeliz baixa capacidade mental de nosso Senhor levou-o a tirar tais conclusões, e que o levará a procurar-te. Quando se der conta da confusão que cometeu será tarde demais, se é que me entende.”

“Não, não entendo.”

“Lucrécia, ele é um déspota! Todo o poder desta cidade está nas mãos dele! Não há nada que não possa fazer! Ouça meu apelo, pelo seu próprio bem!”

“Já te perguntou por qual razão deixei a casa de meu esposo?!” O ser escuro silenciou-se. “Pois tal qual nosso Senhor, o meu pessoal divide do mesmo senso, tão predicado, de julgamentos. Ele, tal qual teu parente deve sofrer de graves problemas mentais.” Ela pareceu mover-se bruscamente. “Consegues olhar isso?! Consegues?! Esta é a conseqüência que me fez sentir em pele! Vês como está partido e sangrento este lóbulo?!” O ser escuro engoliu um amontoado de saliva fazendo o som ressoar pela cozinha. “Vá embora. Não o quero mais aqui. Posso mui bem defender-me sem ajuda de músculos e barba…” E o ser saiu, cochichando alguma coisa no ouvido da mulher.

Ela se levantou e pôs-se a chorar por alguns minutos, depois limpando-se e acordando ele e o amigo. No café, Jeremias perguntou.

“Sabes sobre meu pai?”

“Ele disse que em conseqüência dos ataques, iria servir de cozinheiro para os soldados. Agora que a poeira parece ter baixado, deve aparecer por aqui logo mais.”

“Eu espero que sim. Sempre tive curiosidade de conhecê-lo.” E foi a primeira vez que Lucrécia ouviu a voz de Barrabás.

Nunca tive muito contato com Lars Von Trier. O primeiro filme com que tive contato foi “O Anticristo” que na minha singela e pouco profissional opinião é um filme lindo e muito bem concluído. Forte? Sim. Mas tudo aquilo foi necessário. O segundo filme do diretor com qual tive contato foi “Dançando no Escuro”, aquele mesmo com a Bjork, um professor meu emprestou-o para mim um dia. Foi um filme bastante chocante, tal qual “O Anticristo”.
Agora tive a oportunidade de assistir “Melancolia”, o mais novo filme dele. E realmente é lindo. Tanto a arte do filme, os quadros antes do filme e o quadro final. É um filme que fala sobre vulnerabilidade, sobra encarar a impotência. Muito bom mesmo.
Nota: 09/10

Nunca tive muito contato com Lars Von Trier. O primeiro filme com que tive contato foi “O Anticristo” que na minha singela e pouco profissional opinião é um filme lindo e muito bem concluído. Forte? Sim. Mas tudo aquilo foi necessário. O segundo filme do diretor com qual tive contato foi “Dançando no Escuro”, aquele mesmo com a Bjork, um professor meu emprestou-o para mim um dia. Foi um filme bastante chocante, tal qual “O Anticristo”.

Agora tive a oportunidade de assistir “Melancolia”, o mais novo filme dele. E realmente é lindo. Tanto a arte do filme, os quadros antes do filme e o quadro final. É um filme que fala sobre vulnerabilidade, sobra encarar a impotência. Muito bom mesmo.

Nota: 09/10

Anonymous asked
O tumblr do Neil Gaiman: neil-gaiman ponto tumblr ponto com. Espero que você já tenha se aprofundado nas obras dele. Inclusive você-sabe-qual.

Seguindo. E não te preocupes, amigo, estou devagarinho lendo a saga. Acabei o número 10 ontem

likeaunfamiliarplace:

Andrei Tarkovsky.
A primeira vez que vi um de seus filmes foi como me deparar com uma janela para a alma, foi como uma declaração plausível de amor, sentimento e devoção a única arte que pode transmitir tudo em todos os sentidos: O cinema.
Meu mundo parou, e quem dera um dia eu poder expressar isso de maneira singela e exata, grandes trabalhos são reflexões de grandes pessoas.
With Love.

likeaunfamiliarplace:

Andrei Tarkovsky.

A primeira vez que vi um de seus filmes foi como me deparar com uma janela para a alma, foi como uma declaração plausível de amor, sentimento e devoção a única arte que pode transmitir tudo em todos os sentidos: O cinema.

Meu mundo parou, e quem dera um dia eu poder expressar isso de maneira singela e exata, grandes trabalhos são reflexões de grandes pessoas.

With Love.

Anonymous asked
are you going to the beatles: the lost concert" movie when it comes out next month?

If it comes to my country, why not? Sure yeah, I’m going!

Memórias d’um acordeão aposentado

Quando penso no toque dele, na rapidez de seus dedos e na paixão que sentia ao utilizar-me, tudo que sinto, por mais triste que seja, é essa exclusiva e linda palavra, tão cheia de significado em sua essência e infeliz, embora muito bela – acho que porque as coisas mais belas do universo são sempre tristes, mesmo nunca perguntando-me o porquê -, a saudade.

Lembro-me do brilho dele ao me ver escondido atrás de uma grossa camada do vidro mais frágil que existia – quem roubaria uma loja de músicas? – naquela loja pequena e escondida num dos cantos de Buenos Aires. Seus olhos tão pequenos se enchiam d’água ao pensar na possibilidade de me ter em seus braços, por isso, durante meses, sempre por volta das três e meia vinha e me olhava com seu brilho infantil. E o dia da minha compra, talvez fosse esse o dia mais feliz de nossas vidas. Até então nossa relação não passava de uma paquera, de um flerte inocente, sem compromisso mais duradouro do que os minutos em que a troca de olhares acontece, mas no dia 15 de novembro de 1954, lembro-me como se fosse ontem, seu pai, com seu bigode ajeitado e cabelos brancos nas laterais comprou-me depois de muito negociar com meu, até então, “dono”. E coloco a palavra dono entre aspas, pois nunca me considerei propriedade do barrigudo. Meu verdadeiro dono é aquele menino dos olhos brilhosos, aquele rapaz que escapava do mundo ao seu redor na música que tirava de mim, aquele homem que por muitos anos fez de meu som seu sustento nas ruas e nos estúdios.

E como foi feliz o dia em que nossa relação foi consumada. Foi nosso casamento, a oficialização de nosso querer. Eu o queria, pois o que há para um acordeão fazer numa vitrine a não ser olhar os artistas de rua e sentir uma vontade tremenda de jogar-se para calçada e gritar minha melodia e afinação sem compromisso com sustento algum? Com o único e simples compromisso de mostrar ao mundo meu tom e minha alma, flertava com a criança de mais ou menos 10 anos querendo nele o que ele queria em mim: um sentido.

A primeira vez que pôs suas pequenas mãos em mim. Foi a primeira vez que senti o toque que mais tarde viria a me causar tamanho saudosismo. Eram pequenas, com seus ossos finos e movimentos desajeitados. Pude sentir os ossos de sua perna quando colocou-me em seu colo, e o movimento de seu ombro juntos ao desconforto, sempre ajeitando minhas alças… Se eu tivesse olhos, garanto que estariam cheios d’água agora… Seu pai tirou-me de seu colo e tocou minha primeira música. Não passava de um simples bolero, mas é até hoje uma das músicas mais especiais e guardo-a na minha superfície metálica que alguns podem chamar de coração. A música, a primeira música, combinou perfeitamente com a cena. Meu dono colocou as duas mãos no rosto e ouviu o pai tocar com olhos atentos, cheios de esperança, desejando no seu mais profundo ser a astúcia de pegar-me em seus braços e desbravar-me tal qual seu pai fazia. Analisando tal cena agora, forço e forço a mente, mas não lembro se eu dividia do sentimento com ele. Gosto de pensar que sim…

As aulas, os treinos, os meses e anos de teste, intercalados com apresentações na igreja e para os churrascos de família, todos esses momentos pareceram passar como aquela música que gostamos, como aquela tarde com os amigos. Quando me dei conta, o menino dono meu já não era tão menino assim. Havia deixado o cabelo crescer na altura do ombro, coisa que não agradava nem um pouco o pai, e agora carregava uma outra aliança no dedo, prateada. Não havia nada que me irritasse mais do que sentí-la batendo em minha madeira quando ele estava nervoso ou ansioso. Era muito melhor quando aliava tais sentimentos num improviso realmente improvisado – não era como os improvisos ensaiados, pois estes requeriam tanta habilidade que só muito mais tarde para experimentá-lo.

Uma das tardes que nunca vou esquecer, foi a do dia que trouxe uma garota – que mais tarde viria a tornar-se sua esposa – muito linda, com os olhos mais verdes da cidade e o sorriso mais marcante(nos apaixonamos, eu e ele), para seu quarto. Era julho de 62, ele com seus 17 anos de idade, prestes a fazer 18, logo em novembro, trouxe-a a garota de nossos sonhos para lá. Ela vestia um vestido azul que cabia perfeitamente em seu corpo fino e um laço na cabeça. Juntos, eles realçavam ainda mais seus olhos verdes. Ela sentou-se na cadeira da escrivaninha, ele pegou-me no colo e depois de dizer algumas palavras, tocou uma música que havia ouvido no rádio algumas semanas antes e havia aprendido a tirar em mim, era na voz de uma tal de Edith, uma das mais lindas que tive o prazer de tocar, La Vie en Rose. Lembro-me da boca dela cantarolando a música junto. Ao fim da música, ao invés de aplausos, tudo que se ouviu foram os estalos de beijos inocentes e sem prática. Eu encostado agora na cadeira da escrivaninha, assisti a cena toda. Foi a primeira vez que beijamos uma garota.

O dia da noite de núpcias também foi lindo, ele me pegou no colo e foi, esta, a primeira vez que conseguiu improvisar de forma ensaiada. Foi a primeira vez que pude expressar sua alma. Foi justo, faziam anos que ele expressava a minha.

E como já disse, o tempo passa rápido demais pra acompanhar e quando fui me dar conta que já era 1970. Ele não me tocava mais com tanta freqüência, trabalhava como contador a semana inteira e não podia mais dedicar seu tempo a mim, preferia dedicá-lo ao casamento, e eu, até hoje, concordo cegamente com a decisão.

Seu pai, um dia veio nos visitar. Ele tossia mais do que o usual e o cabelo branco das laterais já tomava quase toda a cabeça. Depois de tomar-mos um café, os dois me tocaram na sala de estar. Meu dono continuava com uma técnica muito boa, embora não muito acurada. Seu pai, por outro lado, que sempre teve uma astúcia tremenda ao pegar-me no colo, não conseguiu realizar mais de uma canção e meia. Suas mãos, agora tremiam e não havia mais fôlego em seus pulmões. Lembro-me de suas palavras ao filho. Ele dizendo que, por toda a sua vida, havia o visto tocar-me com tanto fervor, que não imaginava vê-lo numa corporação, mas sim tocando sua música em qualquer lugar que fosse, mesmo que na rua. A alegação foi seguida de uma reação imbecil de meu dono, que destratou-o e os dois, pra falar a verdade,só meu dono acabou saindo de mal com o pai. Um mês depois, seu pai veio a falecer.

A reação na nossa residência foi grande, meu dono foi tomado por uma revolta tremenda e até ameaçou com a mão em palmo aberto o amor de nossa vida. O que se seguiu então foi um desespero, uma falta de ar tremenda, um sufoco enorme a maior decepção de nossas vidas. Nunca o vi tão abalado, o que deixou-me abalado tal qual. Foi nesse dia que percebi que eu tinha um pulmão. Queria dar-lhe todo o meu fôlego, e foi através de uma sessão de mais de três horas de improviso ensaiado, que lhe dei o maior suspiro de sua vida. Foi nesse dia, um dia de amor e lágrimas que ele compôs sua mais bela obra, até hoje só ouvida por eu, ele e sua esposa.

Quando dei-me conta, meu dono já estampava cabelos os mesmos cabelos brancos do pai e todos os dias, por volta das seis da manhã, ele punha-me em minha maleta e me levava consigo ao centro da cidade, onde conseguia arrecadar muito mais do que no emprego de contador.

Um dia chegou fino e elegante um velho papudo e grisalho oferecendo-nos a oportunidade de gravar um disco, pois ele havia escutado as composições de meu dono e as achou magníficas, disse que gravaria todas as composições que viessem a ser boas. Gravamos todas as composições em três discos. Eles não venderam muito, mas o suficiente e em mais de vinte países. Fomos convidados à televisão, fizemos alguns shows por aí, tocamos para nossos filhos em noites sem luz, e quando fui me dar por conta, já era 1995. Ele com seus cinqüenta e um anos de idade nunca me trocou, embora as oportunidades e ofertas fossem de um leque bem aberto, ele manteve-se fiel e mandou-me restaurar três vezes nesse meio tempo, e eu, nos meus quarenta e tantos anos, não podia sentir-me mais feliz.

Gui, nosso filho chegou um dia trazendo uma tela bem grande, como uma televisão. Disse que era a mais alta tecnologia e que a estava dando de presente para ele. Ele nunca a usou.

Lembro-me dele conversando com a esposa na sala enquanto tocava algumas clássicas em mim. O telefone tocou, ele atendeu e pareceu não acreditar no que ouvia. Ligou, então a televisão e nós três nos deparamos com dois prédios e um deles em chamas. Era setembro de 2001. O suspiro de susto que ela deu ao ver o segundo avião colidindo a outra torre até hoje não sai de minha mente. Meu dono fez infinitas ligações, mas não se frustrou e pôs-se a chorar. Gui estava no prédio.

Era um dia frio, 11 de Novembro de 2001, um mês depois da morte de Gui. Eu e ele viajamos sozinhos e, ao chegar em Nova Iorque, antes mesmo de nos hospedarmos em algum lugar, fomos ao Ground Zero. Algumas pessoas trabalhavam e outras deixavam flores. Ele sentou-se num banquinho e começou a tocar. Tocou por mais de uma hora, um multidão se juntou em volta, algumas pessoas até chorosas e o assistiram durante esse tempo todo. Suas mãos não eram mais tão ágeis, ele, tal qual o pai, tremia. Até hoje não vejo lógica nisso, a menos de um mês ele tocava perfeitamente. Nós recusamos qualquer tipo de dinheiro e voltamos ao mesmo lugar, chorando juntos por uma semana, e depois voltamos pra casa. Foi no fim dessa semana, descobri meu olhos, pois foi a última vez que ele me tocou.

Cinco anos depois, foi a vez dele. Em 4 de março de 2006, meu dono faleceu vítima de um derrame.

Hoje, e que data é não faço ideia, eu fico guardado contando os minutos para acumular poeira suficiente e ver o amor de nossa vida me limpar. E ela vem toda devagar, limitada, grisalha. Com cuidado tira toda a poeira de todas as minha dobras e depois me encara, seus olhos se enchem d’água e ela chora com sinceridade. Nós conversamos através de olhares e eu acho que ela sabe que divido do mesmo sentimento, aquele mesmo de palavra única, a saudade. E é nessas horas, nas trocas de olhares, e na compaixão que descubro meu mais singelo órgão, o coração.

O Mostrengo Austral Parte IV

“Corre!” E os dois correram como nunca. Jeremias olhou para cima, e viu o céu infestado por bolas de fogo. A sua frente, Barrabás nunca olhava para trás ou para cima. Ao fundo, podia ouvir os soldados gritando e correndo na contra direção dos dois. Enquanto alguns gritavam perguntas, sem saber o que acontecia, outros tentavam expressar um ímpeto próprio de liderança gritando ordens para todos os lados, tentando, de forma inevitável e muitas vezes equivocada, fazer com que as pessoas que se encontravam num frenesi incontrolável adentrassem suas residências e se acalmassem, mas as tentativas se davam de forma tão errada, pois eram instintivas e pouco racionais, simplesmente levadas pela vontade de exclamar-se como um novo herói e ganhar medalhas, que o caos se instaurava em magnitude muito maior do que a desejada, causando mortes muito além das que seriam se a situação fosse encarada pelos soldados, que a pouco foram proclamados os melhores preparados da península, da forma que deveria, ou seja, de forma calma e racional, sem heroísmos. E tal reação, frenética e maximamente imbecilizada, deve-se ao fato de que não importa o quão bom é o preparo para qualquer situação, o quão ensaiada e revista, e o quão prevista e precavida, são as possibilidades de reação, na hora da ação real, as coisas nunca acontecem como no papel. E era este o conhecimento que faltava ao povo de Ojeriza.

Jeremias viu o amigo virar em uma esquina a direita, mas corria num ritmo tão frenético, ainda sem saber se deveria ficar encantado ou assustado com a vermelhidão dos céus e a quantidade de poeira e levantar-se, que deixou-o passar e continuou num caminho autônomo, esquivando de guardas e senhoras chorosas. No caminho, viu um garoto com quem costumava brincar quando mais novo. Uma pedregulho havia penetrado seu rosto, logo acima da sobrancelha, deixando um enorme buraco em sua testa. A endorfina em seu sangue estava em níveis tão altos que não sentiu nada a não ser admiração pela cena. Em seus passos rápidos e sucessivos, ele viu a cena devagar, podendo contemplar os olhos chorosos da mãe segurando no colo a cabeça furada do amigo.

Lembrou-se então, que Barrabás havia virado a direita em algum momento e pensou, de forma muito sagaz, que se o fizesse era capaz de reencontrá-lo e, quem sabe?, talvez os dois saíssem vivos do ataque austral. E o fez, um passo após o outro, esquiva após esquiva, deparou-se com uma das cenas mais marcantes de sua breve existência até então. Viu seu amigo, Barrabás, ruivo que considerava como uma das pessoas mais duras e fortes que já conhecera, observar com olhos fixos e cheios d’água, como se nada do que acontecia ao seu redor importasse, uma velha senhora de mais ou menos cinqüenta anos contorcendo-se no chão e convulsionando. A baba branca e espumada, os olhos extremamente abertos e os movimentos contínuos que ela fazia com o corpo causariam, e causaram a Jeremias, a qualquer pessoa uma repulsa incontrolável – se um padre, por exemplo, assistisse a cena, era capaz de acusá-la de bruxaria e queimá-la na fogueira -, mas ele viu Barrabás comovido com a cena, atônito e espantado. Quem seria tal senhora? Por que ela causara tanta comoção ao amigo? Essas eram respostas que Jeremias não tinha, e não tinha, inclusive tempo para pensar em alguma delas, pois olhou para cima e viu que era muito provável que uma das tantas bolas de fogo estava vindo em direção ao colega. Correu então, em sua direção e começou a puxá-lo incessantemente para longe da velhota. Segundos depois, uma imensa bola de fogo a alguns metros de distância e uma correria ao lado contrário do ponto de impacto começou. Os dois só conseguiram ver  uma multidão correndo na direção da velha enquanto a poeira baixava e a fumaça subia. Quando finalmente conseguiram uma visão mais clara, viram a velha. Ela não convulsionava mais. Um osso de seu braço saia para fora do tecido, sua caixa torácica estava completamente afundada, tal qual seu rosto. Ela estava irreconhecível. Ao ver a cena, Barrabás abraçou Jeremias e chorou como um bebê.

“Não, amigo. Temos de achar um lugar seguro. Depois haverá muito tempo para soltarmos nossas lágrimas.”

Barrabás, então, com seu cabelo ruivo, limpou o rosto e sem dizer uma palavra, somente olhando no rosto de Jeremias, conversou com ele e os dois partiram a correr.

Chegaram, finalmente, guiados por Jeremias desta vez, em uma confeitaria. “Meu pai mora aqui, ele pode nos ajudar.” Bateram na porta com força, gritando no meio tempo.

“Vão embora! Não temos como abrigar ninguém aqui!” disse uma voz feminina.

“Sou Jeremias! Filho de Edmur! Abra a porta, por favor, por favor!” E a porta se abriu.

Os dois meninos, então, encantaram-se com uma das mulheres mais lindas que já viram. Os dois sabiam muito bem quem era, ou melhor, de quem era, mas não faziam a mínima ideia do que ela fazia ali e não na casa do marido. Lucrécia, com seus cabelos negros e olhos azuis acolheu os dois meninos e logo voltou a trancar a porta com um pedaço pesado de madeira, auxiliada pelos dois.

“O que estavam a fazer nas ruas?! Não sabem dos perigos que estamos fadados aqui?!”

“Só estávamos observando a guarda, não era nada demais.” Barrabás não se atrevia a dizer uma palavra.

“Nada demais?! Como assim?! Tu devias estar com teu mestre ferreiro, e não assistindo os militares imbecis conversando sobre sua demasiadas falsas glórias!”

“Quem és tu para dizer aonde eu devia estar?! Tu é quem devias estar na casa de teu esposo e não na residência de meu pai!” Disse, desafiador. “Por falar nele, aonde está?”

Ela deu-lhe um tapa no rosto. “Teu pai e teu mestre não ensinaram-te respeito? Não tens o direito de saber o que eu devo ou não fazer, mas eu tenho, ao contrário, pois além de ser esposa de um dos mais altos soldados deste feudo, sou uma dama e, inclusive, mais velha que tu.” Ele aquietou-se, e começou a chorar. Lucrécia não sabia como reagir, nunca fora dura ou repressiva com ninguém, mas manteve a pose. “Podem ficar aqui até que os ânimos dos soldados que nos cercam se diminuam. Até lá, estão subordinados às minhas ordens, entenderam?” Com lágrimas no rosto, os dois fizeram que sim.

Mais tarde, por volta da noite, quando os três estavam mais calmos e os barulhos tinham diminuído drasticamente, embora a batalha fosse contínua, tendo em vista os gritos de ordem e de angústias que eram ouvidos ao fundo, sentaram-se à mesa e começaram a comer pão e, embora os dois fossem muito novos, vinho. Era a única bebida que tinham, mas não desceu a goela dos rapazes de mal gosto, eles estavam até intrigados com o cheiro forte e o gosto amargo do vinho tinto. Descobriram-se apreciadores do álcool naquela noite.

“Por que não abes a boca, menino?” disse Lucrécia, dirigindo-se a Barrabás. Ele não respondeu.

“Ele tem medo de ti.” respondeu Jeremias. “Tu sabes, és mulher de Domos, e ele” apontou com a cabeca ao amigo de cabelos ruivos. “não é  maio fã de seu esposo.”

Ela, então, virou-se a Barrabás. “Pois bem, temos algo em comum.” Os dois garotos se surpreenderam com a alegação, mas mesmo tal surpresa não foi suficiente para que o garoto abrisse a boca a não ser que fosse para fazer descer vinho na goela.

“Corre, Brian!” E os dois correram. Os guardas os perseguiam pra lá e pra cá o tempo todo. Os dois irmãos, Barrabás e Brian, um com sete e outro com treze. A velha senhora, toda enrugada e grisalha, gritava sem parar. Viraram juntos uma esquina, depois outra, depois mais uma até que então se perderam. Barrabás ainda virara algumas esquinas antes de perceber que o irmão já não estava consigo. Começou então a fazer o caminho oposto para ver se o encontrava. Supreendeu-se ao vê-lo sendo escoltado pelos soldados de Domos.

Naquela mesma tarde foi o dia da execução. Barrabás pôs-se a observar a cena de longe, a velhota via tudo da primeira fileira e seus gritos de ódio podiam ser ouvidos por toda a praça e distingüia-se dos outros por ser o mais cheio de asco.

“Sabes por que está aqui, jovem?” Perguntou Apso.

“Pois pequei.”

“E como! Roubou-me uma sacola de moedas!” Gritou a velha.

“Estás hoje aqui, pois roubastes dessa senhora. Ponho-te, então, diante da Bíblia para que confesse teus pecados.”

“Roubei uma sacola de moedas desta senhora, arrependo-me de forma tremenda.”

“Arrepende-te nada! Merece a morte!”

“Cale-se, senhora!” Gritou Domos e ela surpreendeu-se, mas calou-se.

Apso, então, no ápice de sua pose, perguntou. “E o fez por qual razão?”

“Pois queria comprar meu lugar no céu.”

A multidão espantou-se. Brian, tão jovem e tão esperto.  Pensou Barrabás.

“Não sabes que comprar indulgências com dinheiro roubado é uma passagem direta para o inferno, rapaz?!”

“Desculpa-me, Padre, é que vós ficam o tempo todo fazendo a propaganda das indulgências e como não tenho como trabalhar, nem pais, tentei dar meu jeito.”

A multidão, menos a velha, pareceu se comover.

“Além de roubar ainda culpa a igreja por cobrar por indulgências?! Até parece que não tens alma… Me diga, garoto, não és um pagão, é?!” Disse o monge.

“Não, acredito no pai, no filho e no espirito santo, é claro.”

“Pois então é um herege!” A multidão veio a loucura. Os gritos de ódio aumentaram de forma tremenda. Toda a comoção pareceu sumir. Barrabás ficou tenso. “Pois bem, garoto, já que acreditas no nosso Deus, e apesar de ser um herege, terá um julgamento cristão. Dizem que a voz do povo é a voz de Deus, pois bem, o povo decidirá teu destino.” Virou-se ao público. “Acham que o garoto deve pagar a pena na sela ou na espada?”

E sem hesitar o público gritou, a velha principalmente, com a maior vontade do lugar, e ao ouvir, Domos começou a preparar-se, seu olhar não era nem um pouco feliz, estava sentindo-se sujo, mas era o que tinha de fazer:

“ESPADA!”

“Parla Mosé!”

“Vamos embora!” dizia ela, com olhos cansados de tanto olhar as prateleiras.

“Você não tem noção do conhecimento que está a rejeitar! Olha! É a Biblioteca de Alexandria! Todos os conhecimentos do mundo estão aqui. Não vê que os maiores mistérios da humanidade, as maiores dúvidas e polêmicas tem suas respostas encontradas aqui, nesses papiros antigos!?”

“Mas você nem sabe ler hieróglifos…”

“Isso não é problema, existe ali naquela sala um mecanismo de tradução feito na torre de Babel. Sabia que ela realmente foi construída e os homens realmente chegaram aos céus?” Ela fez que não. “Pois é, vi isso num livro antigo que peguei agora pouco. “O Maior Monumento da História” é o nome. Acredita?” Ela bufou, estava de saco cheio do lugar. “Os homens realmente chegaram aos céus, ultrapassaram das nuvens, mas ao contrário do que pensavam, não encontraram Deus algum. A história de que Ele teria amaldiçoado os construtores com línguas diferentes é uma bobagem escrita por um dos tantos observadores de Sião. O que aconteceu foi uma união de povos que deu tão certo que a explicação do Deus semelhante ficou ultrapassada. Foi dessa construção que religiões como o hinduísmo e o budismo surgiram.”

“Grande coisa.” E bocejou.

“Você não sabe o que está perdendo.”

“Ah, Fred, não dá. Eu vou embora.”

“Ainda não! Você tem que ler um pouco. Por que não vai atrás de algum livro?” Disse, enquanto passava a mão no bigode.

“Eu vou procurar por um então.” Ele sorriu e pôs-se novamente a investigar as gigantescas prateleiras com escritas.

Ela começou a andar pelo salão. Seus passos ecoavam, tamanha a dimensão de grandeza do lugar. Ela gritou, Vida!, e pode ouvir mais ou menos seis respostas em igual tom de voz, e volume decaindo gradativamente.

“É maravilhoso não?!” gritou seis vezes.

“O que?!” Ela perguntou mais seis.

“O Eco! É sensacional!” e riu seis vezes.

Quando tudo se aquietou, ela decidiu ir olhar as esculturas que tinham por lá. Passou e soltou algumas lágrimas em frente a cruz de Jesus Cristo, riu quando viu o estado deplorável do Santo Graal. Parecia que se fosse tocado desmancharia como areia entre os dedos.

Começou a analisar, então, as estátuas dos antigos deuses gregos. Viu todos eles com detalhes, e, finalmente foi se levou até as artes mais modernas. Viu David, a escultura, e muitos outros quadros que a faziam estremecer. Chegou a Mosé de Michelangelo. Lembrou-se do que ouviu sua professora de história dizer em sala e repetiu em voz alta.

“Parla Mosé!”

“Con piacere!” Respondeu e sorriu a estátua. Ela pulou pra trás, tropeçou e caiu no chão. Passou a mão nos olhos para ver se acreditava no que via, mas a estátua já não se mexia mais.

Ela correu freneticamente até Fred.

“A gente tem que ir embora, Fred!”

“Mas por que? Nem começamos a explorar o conhecimento desse lugar direito.”

“Tem alguma coisa estranha aqui, vamos!”

“Se quiser ir, vá sozinha então, eu tenho muito a estudar.”

Ela então lhe deu um tapa no rosto.

“Venha comigo agora!”

“Eu não vou, Adélia! Não estou te pondo em condição de mulher do século XIX, e também não quero que me ponhas nela! Tens teu livre poder decisão, deixa-me, vá embora então, e deixa-me absorver todo o conhecimento do mundo sozinho.”

Ela o largou a manga de seu paletó bege e correu, quase tropeçando em seu longo vestido azul, para a porta. Era uma porta vermelha, como dessas de cabine telefônica da Inglaterra, que, apesar de cheia de vidro, não deixava nada transparecer a não ser uma forte luz branca.

Adélia abriu a porta e ela e toda a biblioteca, inclusive Fred, foram tomados por uma imensa luz branca que foi enchendo o lugar até quase transbordá-lo. Era como o mar de leite, mas ainda mais branco.

Até hoje não se sabe o que aconteceu com os dois, mas alguns afirmam que foram arrebatados.

O Mostrengo Austral - Parte III

Parte I

Parte II

Inúmeros feixes de luz penetravam pelos pequenos losangos entalhados no confessionário. Por entre a madeira talhada , Apso passava a mão nas barba mal feita que estampava no rosto e, sem querer de forma alguma ser pretensioso, aguardava pela triunfal chegada do rapaz com quem, de certa forma, crescera, atual senhor do Feudo de Ojeriza, Amábilo Teodoro Cortez de Marco Franco Miramar Fonseca  III, popularmente conhecido como Franco, o franco. Ele deveria vir naquela tarde para realizar as confissões que fazia com freqüência semanal, e esta semana em específico seria uma deveras especial, pois a nem dois ou três dias de diferença a “cidade” de Ojeriza sofrera d’um cerco monumental. Soldados do baixo equador cercavam a cidade por todos os lados, deixando ninguém entrar e ninguém sair, matando qualquer um que ousasse colocar os olhos acima dos muros do lugar. Mas é claro que só se trata de uma figura de linguagem, pois a armada do Feudo aguardava com barris e barris de óleo quente inimigos não tão austeros com a segurança dos próprios corpos, dispostos a morrer por causa alguma que fosse.

De olhos bem fechados, Apso concentrava-se nos sons a sua volta. Passos de alguma pessoa qualquer, o som da própria respiração, o ranger da madeira dos bancos ao receber algum visitante, mas se fizesse realmente silêncio, se concentrasse todas as suas forças para a tarefa de ouvir o que se passava ao seu redor, era capaz de ouvir o barulho dos fios de vela queimando, da cera derretida escorrendo os candelabros e, as vezes, essas muito raras, era capaz de ouvir o som da luz entrando, penetrando e dissolvendo-se em cores nos vitrais da igreja. Nos tempos caóticos em que vivia, com ameaças e o medo tanto de doenças, esta sensação, de ouvir a luz, era o mais próximo que já se sentira de Deus. Quando conseguia ouvir o som da luz, sentia que todas as suas dúvidas, angústias e frustrações, principalmente aquelas relacionadas aos olhos de Deus e para onde eles se voltavam, extinguiam-se como um passe de mágica. Não que não houvesse fé no coração do homem, mas a angústia da dúvida batia forte em alguns momentos, principalmente durante as execuções que era obrigado a assistir na mais ampla pluralidade etimológica. O monge, então, começa a ouvir passos assíduos que vão aumentando o som de forma gradativamente irritante aos ouvidos dele, fazendo-o estremecer cada vez mais a medida que o som dos passos ia aumentando, até que, finalmente, entregue à tortura auditiva que a super-concentração lhe causara, ele abre os olhos e toda a frustração de não poder ouvir o som do silêncio é interrompida de forma brusca, causando certo alívio e conforto aos ouvidos sensíveis do monge.

“Perdoa-me, Padre, pois pequei.” dizia uma voz doce, sem ranhuras ou imperfeições,uma voz treinada ou, quem sabe?, predestinada a externar discursos divinamente.

“Acho que já sei muito bem sobre o que vem confessar a mim, Senhor.” dizia o monge, com um sorriso tímido estampado no rosto, certo de que sua previsão não haveria de falhar.

“E qual é o peso que pensas que venho jogar à suas costas, primo?”

“Por favor, não me trates por ‘primo’, afinal, estamos na casa do Senhor e não em uma conversa informal entre parentes. Aqui sou um mero representante de Deus na terra…”

“Se assim desejas, primo.” Adso não pode deixar escapar um leve sorriso. “Pois bem, Padre, quais pensas vós serem os pesos que carrego sobre meus ombros, tão grandes que não posso suporta-los sem auxílio da igreja?”

Apso sentiu um tom desafiador na voz lúcida e serena do primo, mas mesmo assim, expôs sua teoria. “Mas é claro que vens confessar sobre o peso gigantesco que sentes nas costas, da responsabilidade exaustiva de coordenar o que se passa em todo o feudo, de ter sobre as costas a responsabilidade da escolha e o tamanho peso da dúvida. Vens aqui hoje para pedir conselhos sobre o que ou não fazer em relação ao exército gigante de infiéis que acampa aos arredores dos nossos muros, veio pedir por ajuda, clamar por uma luz divina. Estou certo?”

Depois de uma risada abafada, Franco diz. “Muito longe disso, primo. Minhas aflições são muito mais pontuais. Já sei muito bem como me portar em relação àqueles esturros estúpidos que mal sabem como portar-se com uma espada nas mãos, mas que pensam serem aptos a batalhar com o melhor exército da península. Sei muito bem como lidar com essa corja e inspiração divina alguma me é necessária.”

O monge suava em seu manto marrom. “Então qual é a pontualidade de tuas aflições? O que te afliges tanto?”

“Lucrécia.” respondeu com certo medo.

“Lucrécia?! Dizes, aquela que veio à comemoração e dançou com Vossa Senhoria? Aquela Lucrécia esposa de Domos, nosso maior cavaleiro? É a esta Lucrécia que te referes?”

Silêncio.

“A exata…”

Apso ficou em silêncio por algum tempo. Não sabia o que dizer ao primo. “Conta-me mais, então. O que sentes? Como sentes? Quais as ambições que passam pela mente de meu Senhor?”

“Lembra-te da noite em que ela veio acompanhada do esposo? Nunca vi olhar mais doce, nunca vi pele mais pálida, nem seios mais fardos ou perfeitos. No momento em que nos reunimos para dançar, pude sentir seus mamilos tocando-me o peito enquanto a dita cuja sorria de tal forma que era impossível descompasar-se ao olhá-la com intensidade muita. Errei um ou dois passos naquela noite, um vexame total.” Apso concordava plenamente com as faculdades mentais do primo e com a escola de admiração que havia criado. Lucrécia realmente era uma mulher linda. “E os olhares que me trocávamos naquela noite, primo, ah… os olhares. Os olhos dela não poderiam ser mais azuis… contemplá-los levava-me diretamente aos grandes oceanos, onde era abraçado pela freqüência monótona das ondas. Queria eu poder ser julgado por tais olhos, isso já me faria feliz o suficiente…”

“Então sente-te culpado por cobiçar a mulher do próximo, Senhor?” disse, interrompendo o raciocínio contemplador de Franco.

“Mas é claro que não!… trata-se de algo muito mais deselegante, algo animal, imbecil…”

“Conta-me, então. Posso vir a ajudar-te.”

“Sabes, primo… Desculpe, não devia tratá-lo por primo, mas as vezes esqueço-me.”

“Não te preocupes, primo. Siga em frente.”

A respiração do Senhor das terras de Ojeriza estava ofegante. “Tenho um desejo que me consome e tenho muita vergonha dele… As vezes, quando estou sozinho, ao lado de minha esposa ou olhando minhas filhas brincando pelos corredores, começo a pensar em Lucrécia e em seus negros cabelos, e ao fazê-lo uma vontade súbita de dominá-la, mesmo que contra sua vontade, percorre-me os pensamentos, e ao contrário de sentir-me sujo ou animalesco ao realizar tais pensamentos, uma epifania imbecil, mas muito lógica e congruente com meus desejos, surge e penso, então: ‘Por que haveria de não fazê-lo? Sou o Senhor destas terras, oras! É quase como se fosse um rei! Sou um nobre, ninguém há de contestar-me se fizer o que fizer, e punição alguma cairá sobre minhas cabeças!’ Se é que podes me entender primo… Mas então, ponho-me a orar antes das longas noites de sono e a única forma de punição me vem a mente, a divina.” Apso estava horrorizado. “Diga-me, Padre, pois preciso de seus conselhos: Por que haveria Deus, que já possui tudo planejado e determinado, de colocar mulher tão linda e tentadora como Lucrécia frente a meus olhos se não para satisfazer-me, tão divinamente digno de nobreza quanto o próprio Rei Rodrigo?”

Apso pensou rápido. “O nosso Senhor pode estar testando-te somente, primo. Lembra-te disso. Até Jesus de Nazaré, seu filho, sofreu de inúmeras tentações. Por mais forte e instintivo que sejas teu desejo, deves resistir a ele, pois Deus nos fez a sua imagem e semelhança, e não a de um animal qualquer que entrega-se aos instintos.”

“Mas Ele já não sabe se vou ou não suceder-me bem ou mal?! Ele não é onisciente?!”

“E como é, primo… e como é…”

“Então por que tens de testar-me?! Por que?!” o tom de voz de Franco elevou-se. “Ele já sabe de tudo, oras!”

“Primo, compreendas. Por mais que Ele saiba de tudo, nunca deixou de testar seus seguidores. Abraão é a prova de que precisas para saber do que falo.”

“Então, tu recomendas que eu faça o que, Padre?”

“Para pagar pelos pecados de pensar em tais luxurias, deves fazer dois terços hoje, e mais dois amanhã. E para que compreendas melhor os planos do Senhor, recomendo a ti que leias sobre Abraão e o teste pelo qual tal homem passou. É uma estória sobre fé muito bonita, acho que gostará de lê-la. Será bom para o teu latim, também.”

“Obrigado, Padre.” E saiu. Por alguma razão, Apso tinha a sensação de que o primo não iria cumprir nem a punição, nem iria procurara pelo teste de Abraão. Saiu do confessionário e se pôs a rezar. Pediu a Deus que iluminasse os caminhos do primo para o bem do feudo, e para o bem de uma mulher indefesa. Fechou os olhos, tentou ouvir o som da luz. Não conseguiu.

Hospedada numa estalagem perto dos portões da cidade, num quarto em cima de uma confeitaria, Lucrécia devia quase uma vida a Edmur, pois ele a havia abrigado quando ela decidiu sair de casa. Ele a vira crescer e decepcionara-se muito quando soube que casara com Domos, e por tal razão estava disposto a abrigá-la e remunerá-la, mas deixou muito claro que não dava mérito algum à escolha que havia feito de deixar de ser submissa ao marido, acontece que ficou perplexo com o olho roxo que ela estampava e sentiu compaixão. Não podia deixá-la aos perigos da rua, mas também não poderia sustentá-la, então a concedeu um quarto acima da loja e ofereceu-lhe um emprego na cozinha.

“Não sabes como sou grata.” Dizia Lucrécia.

“Sei muito bem, Lucrécia. Sei muito bem.” Respondia Ed.

“Por favor, Ed! Deixa-me falar com Lucrécia!” implorava Domos, ao menos uma vez por semana.

“Ela não deseja falar contigo. Quando quiser, ela o fará. Quando deixar de vir aqui com tal frequência, talvez ela repense a ideia de voltar a morar contigo.”

“Ela não pode fazer isso comigo! Sou seu marido e, por isso, seu soberano. Só o fato de você a estar abrigando já seria motivo suficiente para que Franco o trancafiasse numa masmorra…”

“Mas também seria motivo suficiente para que matasse sua esposa em praça pública!… E creio que nenhum de nós quer vê-la morta, não é mesmo?”

“Por que não volta para Domos, Lucrécia?” Perguntava Ed, nas noites em que jantavam juntos. Ele era viúvo e com um dos filhos no exército, e outro sendo aprendiz de ferreiro. Ter alguém com quem conversar era muito bom para a carência emocional que sentia. “Viver sozinho não é bom.”

“Pois não aguentaria sofrer novamente a violência que sofri  nas mãos  dele. Prefiro viver só.”

“O que aconteceu?”

“Espancou-me uma noite, por ciúmes imbecis.”

Para Ed, uma mulher espancada não passava do casual, era um hábito que ele mesmo cultivava com sua falecida esposa.

“Diga-mes, Ed. Não batias em sua esposa quando era viva, não é mesmo?”

Ele sabia com quem estava conversando. Sabia que ela não toleraria viver ao lado de outro espancador. Sabia que, para Lucrécia, era preferível a morte à tal violência, era o que ele sabia. E para não arriscar perder pontos com a nova companheira, com a massagem de ego que sentia ao seu lado, para não sentir-se mais sozinho, decidiu que seria melhor se não fosse julgado pela mulher. “Não” respondeu, mesmo sabendo que aquilo que saía de sua boca era das maiores mentiras que já contara.

O Mostrengo Austral - Parte II

 Parte I

A lua e as estrelas escondiam-se atrás de uma grossa camada de nuvens. Dentro da taverna refugiava-se do sereno, e nas bebidas das frustrações amorosas de sua vida, Cão de Caça, que ouvia dois velhos bêbados contando as histórias de suas aventuras tão mínimas, e das mulheres que já possuíram e toda essa bobagem. O fazia, pois fora um dia cruel. Assistira a execução de um garoto de apenas nove anos que teve o azar de ser capturado ao tentar roubar um dos tantos vendedores da região. Não poderia estar mais devastado. A imagem do corpinho sendo carregado sem a cabeça estava estancada em sua mente de maneira que só bebendo muito para que se fosse. E pensar que ainda fora ele quem ajudara a capturar o menino só o fazia sentir-se mais culpado. Não houvera julgamento, não houvera júri, foi simplesmente crime e castigo e por alguma razão que não podia entender, nem nunca entendeu, sentiu como se algo estivesse errado na sociedade aonde estava vivendo, e por alguns instantes teve vontade de levantar-se e gritar à todos o que julgava estar errado, de gritar e ficar nú frente ao mundo de injustiças do qual fazia parte.

Decidiu sair e respirar um pouco de ar fresco.

Montado em seu cavalo negro, fazia uma espécie de ronda involuntária. Não queria parecer um soldado em serviço, mas a malha de ferro e o símbolo estampado no peito assim denotava. Conforme ia se distanciando da taverna, o som dos gritos e da música abafada ia diminuindo, até que já não ouvia mais nada além dos cascos do cavalo nas pedras da rua. Amarrou o garanhão preto num poste que encontrou no caminho e foi seguiu a pé, cambaleado de tempos em tempos, para uma das praças do lugar. As lamparinas e tochas davam uma iluminação muito ruim ao local, mas de certa forma era a isso que procurava. Sentou-se num dos bancos do lugar e caiu aos prantos.

Os lençóis eram creme. Um dia devem ter sido brancos, pensou enquanto passava a mão sobre o tecido. A morena estava de costas, nua, em sua frente. Virou-se e olhou-o com os olhos mais azuis que já vira em toda a vida. Lembrava-se muito bem de como o olhar dela o fazia estremecer. Ele, um dos soldados mais bem treinados, o primeiro da sua turma, que não temia nada, ficava estremecido e tremia em suas bases quando ela o olhava direto com seus olhos azuis.

- Por que você não gostas das canções? - perguntava

- A vida não é como as canções, Lucrécia. É bem pior, muito menos romântica. Se ao menos soubesse das histórias, das verdadeiras histórias que circulam pelos corredores daquele castelo, se tivesse visto o que vi, talvez não desse tanto valor ao romantismo destas canções bobas.

- Mas eu gosto dessas “canções bobas” - seu sorriso era radiante - Devias respeita-las, ao menos. Não são nem um pouco fáceis de serem feitas.

- Só diz isso porque teu nome é baseado em uma dessas bobagens.

- Ja ouvira “A Morte de Lucrécia” para saber se é, realmente, uma história boba?

- Não ouvi e nem pretendo. - e riu, jocoso.

- E também não é de mim que ouvirás. O cantor que sabia os versos dessa canção morreu faz muito tempo.

- Sabes o porquê?

- Não.

- Pois eu sei.

- E qual é então?! - Olhos serenos e sorriso brando.

- Foi morto, pois sabia demais. Não se pode saber dessas coisas. - No fundo, o que dizia era verdade.

Lucrécia deixou de sorrir.

Franco a olhava com os olhos de um faisão que caça. Sua cadeira era a mais alta de todas naquela mesa onde desfrutavam do ágape simples, mas honesto, servido aos soldados em comemoração às condecorações que receberam de Rodrigo, parabenizando-os por estarem tão bem preparados para suportar qualquer tipo de ataque. Era ultrajante! Não passava de um mero vassalo e achava que era o detentor de poderes tão grandes quanto os Senhores de Castela e Leão! Mas o maior de todos os absurdos que estavam a ocorrer naquele banquete, era o do olhar recíproco de Lucrécia! E se não bastasse a troca insistente de olhares tendenciosos, ele ainda a chamou para uma dança! E ela o aceitou! Domos tinha de por um fim na promiscuidade  de sua esposa.

E pôs!

No dia que se sucedeu, Lucrécia não podia mais olhar Domos no rosto, tanto pelos hematomas que surgiram, quanto pela vergonha que sentia. Por alguma razão ela não era como as demais mulheres - talvez pela residência onde crescera, talvez pelo simples fato de ter a mente permeada por ambições - e achava absurdamente esdrúxula a ideia de ter de ser submissa ao marido pelo simples fato de não haver um pênis balançando entre suas pernas. Tinha consciência de sua condição de mulher e, por isso, sentia-se embaraçada, mas ao contrário do que podem vir a pensar, a ideia de ser amarrada ou impotente nunca sequer ultrapassara suas têmporas.

Naquela mesma manhã, deixou a casa do esposo.

“Por favor!… por favor!…” escutava como se não passassem de ruídos distantes. Domos enxugou os olhos e deu alguns passos até um poste, aonde viria a apoiar-se. Longe, mas não tão longe, podia ver a silhueta do que parecia ser uma mulher. Por alguns momentos pensou que estava vendo virgem Maria.

- Por favor… ah… Por Favor! - Dizia a voz da mulher num tom desesperado. Ela batia de porta em porta - não era tão tarde, não passava das 20h e o dia acabara de escurecer - pedindo dizendo somente as palavras por favor.

Cão de Caça, então, veio a lembrar-se de uma história que ouvira de sua mãe quando era criança, sobre uma aparente mulher que batia de casa em casa nas noites de verão pedindo por abrigo. Normalmente recebia abrigo pela noite, mas como não se tratava de uma mulher e sim de um mostrengo austral disfarçado de pedinte, assim que pudesse, mataria a todos os que a abrigaram e comeria de sua carne. Era uma lenda muito famosa no lugar onde vivia, todos a conheciam.

“Tenho de fazer alguma coisa antes que alguma família morra!” pensou.

Domos sacou uma adaga que carregava consigo da bainha. Cautelosamente na surdina das sombras da noite, ele se aproximou do mostrengo e meteu-lhe a adaga na cabeça, fazendo-a cair morta no mesmo instante.

- BUUUUUUUAAAAAAAAAAAA! - ouviu gritar um bebê.

Aos braços da morta mãe, estava um recém nascido. Domos segurou-o nos braços. Os moradores saíram de suas residências. Uma mulher gritou quando Cão de Caça esfaqueou a criança.

No dia seguinte, ao entardecer, em plena praça pública, Domos foi premiado com uma grande quantia de dinheiro e ovações d’um público gigantesco.

Soneto Quebrado

Soneto Quebrado
Quebrado Soneto
Sono Queimado

Queimado Sono
Silêncio Queixado
Queixado Silêncio

Sintática Queixa
Queixa Sintática
Sistemática Quimera
Quimera Sistemática

Linguagem Sincera
Sincera Linguagem
Quebrado Soneto
Soneto Quebrou